quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Todos podem ler este artigo, até a Luiza!

Vamos imaginar uma cena pitoresca. Você acorda, vai ao trabalho, volta e vai dormir para começar tudo de novo no dia seguinte. Algo tipo “todo dia ela faz tudo sempre igual”, da personagem de Chico Buarque. Até aí nada demais. Pois bem. Outra situação. Você acorda no dia seguinte, quando para no semáforo as pessoas ao seu lado acenam como te conhecem por todas as manhãs. O segurança do trabalho te dá um largo sorriso e pede um autógrafo e assim vai. Essa cena parece estar se tornando tão pitoresca quando não deveria ser.
Em artigos anteriores já falei do poder das redes sociais. É fato e fica cada vez mais latente que essa rede está transformando vidas, até da Luzia, que estava no Canadá! Para quem estava em outro planeta nos últimos dias, explico: uma construtora lançou um empreendimento na Paraíba e o personagem mostrava sua família, exceto a Luiza, que estava no Canadá. Uma empresa concorrente quis explorar (desqualificando), mas conseguiu efeito contrário e o comercial virou “hit” na internet. Todo mundo só fala da Luiza.
Além da Luiza há outros “clássicos”, pessoas comuns que do dia para a noite viraram fenômenos e conhecidos. A Banda Mais Bonita da Cidade fez um videoclip com a música “Oração”. Colocou o vídeo no youtube e no dia seguinte se tornaram celebridades e com uma agenda cheia de shows. Também viraram “famosos” a “sandwich wich” (sic), o “Morre Diabo”, e tantos outros.
Assim como nos filmes e novelas há famosos do “bem” e do “mal”, porém nas redes sociais não estamos falando de atores que vestem personagens e sim de pessoa reais que são vistas (e conhecidas) da forma como são expostas. Exemplo recente. O modelo Daniel está sendo acusado de ter estuprado uma colega do BBB. O caso tomou a repercussão nacional e internacional por força das redes sociais. A emissora escondeu parte das cenas, mas os internautas divulgaram e cobraram providências. Se realmente aconteceu ou não, o fato é que Daniel agora é do “mal”. E ponto. Será que algum pai deixaria sua filha acampar em companhia do rapaz?
Outro caso: a enfermeira de Goiânia. Se ela fez caridade a vida inteira ou não, não importa. O que importa é que ela foi condenada pelas redes sociais (e justamente, diga-se de passagem, tendo em vista as imagens divulgadas). Não terá mais sossego o resto da vida.
As redes sociais vieram para ficar. A sua forma elimina o antigo preceito comunicacional de “um para muitos” para “muitos para muitos”. Somos emissores e receptores. Assistimos e somos assistidos. Estamos sujeitos a virar celebridade ou marginais do dia para a noite. Nossas vidas são personagens reais deste espetáculo interativo. Nós todos, inclusive a Luiza, que por força das redes sociais ficou conhecida, voltou para o Brasil e vai ganhar um belo cachê!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Michel Teló será cult depois de amanhã



Os órgãos de imprensa elegeram Michel Teló como o assunto deste final de ano. O alarde é uma “música” (entre aspas, pois há quem dúvida que aquilo é música), apenas uma “música” que grudou nas rádios, TVs e ouvidos do Brasil e de vários países, inclusive os “em crise” da Europa. A partir daí o “cantor” virou mocinho, bandido, odiado, amado, enfim, uma dualidade sem fim. Estar no centro da discórdia não é prioridade de Teló (será que nenhum marqueteiro pensou em mudar esse nome feio pra burro!!!). Isso é coisa antiga, mas não vamos muito longe não.
Lá na década de 60 enquanto um banquinho e um violão colavam no ouvido de uma nova elite, uns cabeludos de uma tal de Jovem Guarda era relegados a um segundo plano (ou mais) de uma escala musical. Roberto e Erasmo, ambos Carlos, eram sucesso para as menininhas da época e odiados pelos formadores de opinião. Hoje, e não é de hoje, Roberto é Rei; Erasmo é elogiado ao gravar um disco sobre sexo.
Quase na mesma época um público vaiava os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os cabelos que lutavam contra a gravidade e as roupas de cores berrantes eram motivo de ódio daquela elite. Ano depois Caetano é cultuado e Gil foi ministro da Cultura.
Um salto para os anos 80. Quem acompanhou aquela década sabe o quanto os meios arrebentavam uma turma que viria a compor o BRock, como diz Dapieve, o rock Brasil. Medíocre era elogio para as músicas de Hebert Viana, de Renato Russo, de Lulu Santos, de Lobão e tantos outros. Diziam que a música brasileira estava no poço (mal sabiam o que viriam nas décadas seguintes). Hoje esta geração de 80 é mais que cultuada e depois de 30 anos continuam na moda cult.
E não precisamos ficar só na música. Lembro que na década de 80 quem falava que assistia aos episódios do Chaves demorava para recuperar sua moral no meio social. As pessoas assistiam escondidas e nunca ou quase nunca assumiam assistir aos mesmos episódios transmitidos ainda. Hoje as camisetas trazem seu Madruga estampado como símbolo de uma “nova era”.
Chuck Norris? Este era o pior canastrão dos filmes americanos de guerra. É como se fosse o pior de uma lista encabeçada por Stallone, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis e tantos mais. Norris virou Cult e virou gíria, substituindo (e superando) o MacGiver (aquele que resolvia tudo com um clips).
Então, não se assuste se daqui a alguns anos seus filhos ou netos andar com uma camiseta do Michel Teló e ouvir “Ai se eu te pego” com um rosto cheio de saudade. Ou se a revista Cult de 2038 trazer o menino na capa e um pseudo-intelectual ver poesia e denúncia social (?) em “Fugidinha”. O horrível de hoje pode ser “menos pior” que o do que virá amanhã. E dá-lhe o fim do mundo!


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A tradição das festas de final de ano

O período das festas de final de ano é aquele momento em que as famílias se reúnem e se confraternizam na mais perfeita paz. Certo? Não necessariamente. Talvez a hora é mais de desunião que de união.
Não é difícil de perceber que as festas de final de ano trazem uma tradição que é: pessoas com laços comuns, principalmente familiares, estarem juntos. Dizem que nesta hora as diferenças são colocadas de lado e há um único pensamento: paz. Ilusão. O desconcerto da paz já começa na decisão de qual festa passar e com quem.
Para não haver erro (nem desculpas), colocaram duas datas (natal e ano novo) com uma diferença de apenas sete dias uma da outra justamente para quem não estiver em uma data em um lugar, que esteja na outra. Tudo seria muito simples se o ser humano fosse simples, mas (ainda bem) não é!
Quando crianças somos enganados (e não estou tratando do Papai Noel). Conseguimos sentir um espírito natalino, as pessoas se cumprimentando e um clima de alegria. Pura fantasia. Quando crescemos entendemos que esse clima, em grande parte, não passa de uma falsa máscara e um teatro mal encenado.
Parte daquelas pessoas reunidas brigou o ano todo, falou mal daquele e daquele outro e nem quis saber o que se passava por lá. No dia 24 ou 31 tem-se a ilusão que tudo foi acertado ou que os problemas acabaram. Outra ilusão. Mais problemas provavelmente vão estourar justamente na hora de pegar as melhores partes do peru ou na distribuição de presentes. Um sorriso amarelo aqui, uma insinuação aqui, outro copo de cerveja ali e, então, tudo pronto para mais um barraco de natal ou de ano novo.
É assim que as coisas normalmente funcionam. Se ainda não aconteceu com você, fique calmo: em breve irá saborear deste apetitoso descarrego de final de ano. E faz parte das festas, faz parte da cultura. Manter a tradição é natural. Um brinde a todos nós!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Augusto Licks!

Já declarei anteriormente: sou um réu-confesso da música, especificamente do rock nacional dos anos 80 e de forma especial ao grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii. Já relatei aqui a primeira vez que fui a um show da banda (lá no dia 28 de setembro de 1990).

Lembro das discussões que tinha alguns amigos no final dos anos 80 e início dos 90 (sim, as discussões não duravam apenas um final de semana) que defendiam a Legião Urbana e eu os Engenheiros do Hawaii. Vendo hoje parece bobagem, mas não era. Aprendemos muito com os argumentos.

A banda me fascinou sob diversos aspectos. Claro que sabia dos seus “defeitos”, mas guardava-os comigo (por outro lado, os críticos explicitavam). Os membros eram tão diferentes que se completavam. Eu tinha a impressão de uma “arrogância” do Gessinger, do estilo “desencanado” do Maltz e da “seriedade” do Licks (falo dessa formação que de longe é a melhor e de maior representação).

Augusto Licks, que aniversaria neste dia 28 de maio, entrou na banda no segundo disco “A Revolta dos Dandis”, o álbum que marcou a virada da banda em termos de estilo e que marcou sua entrada no time A do rock Brasil.

Nos shows que fui daquela formação ficava impressionado com a concentração do guitarrista durante todo o show. Certa vez em uma entrevista ele disse que se vestia no show tal como fazia para ir as missas. Dá-lhe orações!

O gutarrista Licks existe antes dos Engenheiros do Hawaii. Já era conhecido da cena musical gaúcha junto com Nei Lisboa. Ingressou nas ideias de Gessinger e Maltz em 1987, ou foi “sequestrado” como disse em uma entrevista em 1990. Sorte nossa do sequestro; caso contrário somente os pampas saberiam de Licks e não o país todo.

Certa vez, lá em 1991, eu escrevi uma carta para a gravadora BMG, endereçado aos Engenheiros do Hawaii (naquele tempo não existia e-mail – acreditem!!!). A resposta era um texto impresso padrão, com a assinatura do Licks. Que honra, mas sabia que poderia mais. Escrevi novamente e desta vez um cartão postal, inteiramente escrito com a letra do Licks e junto uma palheta com uma engrenagem raspada com algum objeto cortante!!

Licks, parabéns e obrigado por ter embalado até hoje minha vida com sua guitarra!!


domingo, 1 de maio de 2011

Viveram felizes para sempre?! - artigo da semana

Aquele jovem príncipe casou. A mídia fez com que o mundo não esquecesse que a família real lá da Inglaterra fazia um casamento. Sinceramente não consegui dar atenção ao fato. Imagino que outros fatos têm muito mais importância para mim neste momento. Mas era o casamento real e muito se falou nisso nos últimos dias. Por que será que um casamento atrai tanta atenção?

Tenho uma filha. Ela adora as princesas, e todas elas da Disney. É difícil entender que, mesmo com o fim do feudalismo, as princesas (ou os sonhos que elas provocam) ainda pertencem a um senhor feudal/capitalista. Dá-lhe Mundo Encantado! Enfim!

Assisti e assisto todos os filmes das princesas com minha filha. E são muitas: Branca de Neve, Ariel (um amigo da área da literatura defende que Ariel é nome masculino e que a Disney errou! – Dá-lhe Mundo Encantado!), Cinderela, Aurora (mais conhecida como a Bela Adormecida!), Rapunzel (que em outros contos não era princesa, mas agora é!), Mulan, Pocahontas, Tiana (aquela que beija o sapo!) e assim vai... Cada uma tem uma história diferente, cada uma de um jeito diferente, cada uma é uma princesa diferente. Tem aquelas que nasceram princesas, como é o caso da Aurora, da Ariel (ah, essa é a pequena sereia!), da Rapunzel e da Branca de Neve. A Pocahontas é filha de índio, mas a Disney a trata como princesa! A Mulan é chinesa e juram que ela também é princesa. Outras lutaram para se tornarem princesas: Cinderela e a Bela. Há princesas que não têm mãe: a Cinderela, a Bela, a Branca de Neve, a Pocahontas.

E os príncipes? Ah esses são desprezados mesmo. Como diz minha filha: “não gosto do príncipe da Branca de Neve, pois ele não faz nada e só canta”. O nome dele??? Não tem. A Fera também não tem e o príncipe da Cinderela também não. O da Aurora chama Felipe e esse sim faz alguma coisa (segundo a concepção de “fazer” da minha filha): ele mata dragão.

E na vida real? O príncipe William não mata dragão, mas perdeu sua mãe ainda jovem (nada diferente dos reinos da Disney). A sua mulher Kate Middleton tal como a Cinderela sonhava casar com um príncipe. Tal como a Bela leu muitos livros e encontrou seu príncipe encantado. Tal como a Bela Adormecida teve que ficar um tempo longe dos pais, mas o sacrifico valeu o casamento encantado.

A partir de agora, quando você for contar uma história de príncipes e princesas para sua filha, permita que ela sonhe com castelos, sapos, dragões, reis e rainhas. Para muitos o Mundo Encantado não passa de uma tela de TV. Para outros, ele existe de forma Real! E que (todos nós) sejamos felizes para sempre!!

domingo, 6 de março de 2011

O carnaval, as máscaras e as fantasias - artigo da semana

Estamos em pleno carnaval! É festa daqui, axé na Bahia, escola de samba no Rio de Janeiro e assim vai. Dizem que no carnaval as pessoas têm a liberdade de se transformarem, de se mascararem, de serem aquilo que não são no resto do ano. Mas o carnaval parece não mais terminar. As fantasias estão se tornando reais e não mais sabemos que máscara algumas pessoas estão realmente vestindo.

No meio da semana as redes sociais e os sites de notícias se entupiram de uma fantasia típica de carnaval (se fosse assim definida). A Sandy, aquela irmã do Junior e ex-parceira do Junior (estranho isso, né?!), foi anunciada como garota-propaganda da cerveja Devassa. Sandy garota-propaganda de uma cerveja já é algo que não se imaginava; de uma cerveja chamada Devassa, mais inimaginável ainda! Enfim. Ela tem a liberdade de ser garota-propaganda do que bem entender.

Independente do resultado, a verdade é que, antes mesmo da propaganda ir ao ar, a propaganda que se afirma que todo mundo tem seu lado “devassa”, a cerveja conseguiu seu “status” nas discussões, sem pagar um real por isso. Tudo isso porque se questionava até que ponto Sandy realmente era “devassa” ou não. Afinal, ela é ou não? É fantasia de carnaval?

Estamos aqui falando da Sandy, mas no mundo artístico o que não falta são exemplos. Será que a Xuxa usa mesmo aquele sabonete? Será que a Camila Pitanga compra naquela loja? O que é real? O que é modelo de consumo? O que é fantasia? O que é imaginação? O que é apelo de mercado?

Não precisamos ficar no mundo dos artistas que não são assim chamados por acaso. Esses conseguem (e devem) realmente “interpretar” até mesmo um modo de vida ou de consumo. Agora pensamos, por exemplo, nos políticos. Que máscaras eles usam? Quando usam? Não usam? E as fantasias?

Quando podíamos imaginar o atual governo do Estado criticando o modelo de educação que eles mesmos mantêm há anos? E quando pensávamos que o partido do governo federal votaria o mínimo do salário mínimo?

Diversão é importante; a festa e a folia também. As máscaras transformam, as fantasias mudam as personalidades. Mas algumas pessoas têm que entender que o carnaval tem data para começar e para terminar. As fantasias devem ser abandonadas depois. Caso contrário, é muito pior quando a máscara cai fora da folia! Aí não tem folião que perdoa!!

terça-feira, 1 de março de 2011

O vídeo imita a vida - artigo da semana

Quanto tem se discutido o quanto a vida imita o vídeo! As imagens, quase sempre ficcionais das telas das TVs e do cinema, foram (e ainda são) acusadas de manipuladoras. Dizem que ela transforma a realidade, institui moda, comportamento e atitude, rompe limites, danifica o real. Diferente daquela época em que a arte imitava a vida: um traço aqui e acolá tentava colocar sentido no que os olhos não viam. Está aí uma outra realidade. Mas os tempos são outros... e a forma de ver a vida também.

Nesta semana mais uma vez São Carlos esteve estampada na mídia nacional. As matérias falam de dois adolescentes que, dentro de uma escola estadual, teriam filmado sexo oral. Não se sabe quem foi o primeiro, ou o segundo, ou o terceiro a receber o vídeo e passá-lo para frente e assim por diante. O que era restrito a duas pessoas foi visto por várias pessoas, sendo difícil quantificar, afinal, só no Brasil temos mais de 70 milhões de usuários de internet (só de internet). Celulares temos mais de um por habitante e acredite: o celular faz coisas hoje que o que menos importa é falar e ouvir nele. Assistir vídeo nele? Essencial e básico.

A invasão das novas mídias digitais fez mudar um fenômeno existente há muito tempo: um fala para muitos. Desde as primeiras escritas, passando pela imprensa e assim por diante, temos uma pessoa transmitindo seus conhecimentos a muitas outras pessoas. O rádio é assim; a TV também. A internet mudou: agora muitos escrevem para muitos. O internauta não faz jus aquele antigo leitor ou telespectador “passivo”. Ele escuta e fala. E quando fala é ouvido, pois suas palavras ou sua imagem estão em um ambiente freqüentado por pessoas do mundo inteiro.

Saber o que falar ou o que mostrar é muito importante. Uma palavra dita ao “vento”, como se dizia antigamente, desfazia-se junto com o vento. Hoje as palavras e as falas não desaparecem. Elas estão ali, na rede mundial de computadores, para ser vista ou ouvida por qualquer um. Talvez os adolescentes não tenham dado conta disto. Eles deveriam. Todos devem. Demora-se muito para construir uma imagem, mas a destruição é instantânea.

A vida das pessoas não deve ser escancarada e anunciada em uma rede mundial. O vídeo não deve imitar a vida, não deve transformá-la em uma tragédia. Basta as tragédias naturais. Não faça da sua vida um assunto público. Pouco temos de privacidade hoje em dia. Que tal preservar o pouco que nos resta?